Neutropenia: como a imunidade cai durante o tratamento do câncer

Neutropenia: como a imunidade cai durante o tratamento do câncer

Postado em: 21/11/2025

Durante o tratamento do câncer, muitos pacientes enfrentam efeitos colaterais “invisíveis” que não aparecem nas imagens, mas dificultam a jornada terapêutica. Um desses efeitos é a neutropenia, quando o organismo perde parte de sua capacidade de defesa contra infecções.

Compreender por que isso acontece, quando se preocupar e o que pode ser feito para prevenir ou manejar essa queda de imunidade é fundamental para garantir segurança e continuidade do tratamento. Vamos explorar os principais pontos relacionados à neutropenia no câncer!

O que é neutropenia e por que ela ocorre durante o tratamento oncológico?

Neutropenia é a redução no número de neutrófilos — um tipo importante de glóbulo branco — no sangue. Um valor considerado neutropênico costuma ser abaixo de 1.500 células por microlitro, sendo classificado como leve, moderado ou grave dependendo da contagem. 

Durante a quimioterapia (e, em menor grau, radioterapia ou terapias alvo), muitos fármacos citotóxicos afetam não só as células tumorais, mas também células saudáveis da medula óssea, responsáveis pela formação dos glóbulos brancos. 

Como resultado, a produção de neutrófilos cai e a imunidade do paciente fica comprometida

Além disso, a neutropenia pode não se manifestar com sintomas específicos — sua presença muitas vezes só é percebida quando surge uma infecção. 

Quais são os riscos, sinais de alerta e como a neutropenia pode evoluir?

Quando a contagem de neutrófilos fica muito baixa (por exemplo, < 500 células/µL), o risco de infecções graves, até mesmo fatais, aumenta bastante

Um cenário crítico é a neutropenia febril: quando o paciente com neutropenia apresenta febre (≥ 38,3 °C ou ≥ 38,0 °C por 1 hora) mesmo sem fonte clara, é considerado emergência oncológica

Estudos apontam que quanto maior a intensidade (contagem muito baixa) e a duração da neutropenia, maior o risco de infecção. 

Sinais de alerta que exigem atenção imediata incluem, por exemplo, febre, calafrios, dor de garganta, feridas na boca, dor ao urinar, tosse ou dificuldade para respirar, lesões na pele próximas a cortes ou cateteres etc.

Como prevenir e tratar a neutropenia no paciente com câncer?

Monitoramento e ajustes de dose

Uma das estratégias mais básicas é monitorar o hemograma periodicamente nas fases de tratamento, para detectar queda antecipada nos neutrófilos. 

O oncologista pode ajustar dose, espaçar ciclos ou optar por regimes menos mielossupressores se o risco for alto. 

Uso de fatores de crescimento (G-CSF)

O uso de fatores de crescimento de colônias de granulócitos (G-CSF) — como filgrastim ou pegfilgrastim — estimula a medula óssea a produzir mais neutrófilos. 

Essa estratégia é usada profilaticamente quando o risco de neutropenia febril é elevado. 

Um exemplo mais recente é o efbemalenograstim alfa, aprovado para reduzir a duração da neutropenia causada por quimioterapia, embora ainda emergente nos guias clínicos. 

Tratamento de infecções e suporte antibiótico

Se houver febre ou sinais de infecção, inicia-se antibiótico de amplo espectro de forma empírica, mesmo antes de identificar o agente, dada a urgência; culturas são colhidas simultaneamente. 

Cuidados gerais e prevenção

Medidas de precaução ajudam a minimizar riscos:

  • Higiene rigorosa das mãos para paciente, acompanhantes e equipe. 
  • Ambiente controlado, com filtros de ar e limitação de entrada de pessoas com infecções ou sintomas virais. 
  • Cuidados com higiene oral, escovação cuidadosa, uso de escovas macias para evitar lesões na mucosa bucal. 
  • Evitar alimentos potencialmente contaminados, locais de construção (poeira, fungos), aglomerações. 
  • Monitorar sinais precoces de infecção e buscar atendimento imediato se surgirem sintomas sugestivos.

Dúvidas frequentes

1. Todo paciente com câncer desenvolve neutropenia?

Não necessariamente, mas é muito comum, especialmente em tratamentos que suprimem a medula e em quimioterapias mais intensas. 

2. Quando a neutropenia é considerada grave?

Quando a contagem de neutrófilos fica abaixo de 500 células/µL — nesse cenário o risco de infecções graves aumenta bastante. 

3. Por que minha imunidade cai mesmo com tratamento moderno?

Mesmo terapias-alvo ou imunoterapias podem afetar a medula ou microambiente hematopoiético em alguns casos, embora menos comumente do que quimioterapia tradicional.

4. A neutropenia costuma causar sintomas visíveis?

Geralmente não — sua presença muitas vezes só é detectada por exame de sangue. Sintomas costumam aparecer quando há infecção associada.

5. Quanto tempo dura a neutropenia?

Depende do regime terapêutico, da intensidade e da capacidade de recuperação da medula óssea. Em muitos casos é transitória.

6. Posso tomar antibiótico preventivo?

Em alguns casos de risco elevado, a profilaxia antibiótica é considerada por oncologistas, mas isso depende do perfil do paciente e risco-benefício.

7. Quando é indicado usar G-CSF?

Quando o risco de neutropenia febril é > 20–30%, ou em pacientes que já tiveram episódio grave no ciclo anterior. 

8. Se eu tiver febre estando neutropênico, devo buscar ajuda imediatamente?

Sim. A neutropenia febril é considerada urgência médica e exige avaliação imediata. 

9. Há chances de recuperação completa da imunidade?

Sim. Na maioria dos casos, a medula óssea se recupera após cessar o agente citotóxico ou com suporte (G-CSF etc.).

10. Que profissional devo procurar para lidar com neutropenia?

O oncologista, muitas vezes em conjunto com hematologistas e infectologistas, é fundamental para orientar o manejo ideal, ajustando terapias e prevenindo complicações.

A neutropenia é um dos desafios “ocultos” do tratamento do câncer — silenciosa, porém potencialmente grave. Mas com monitoramento cuidadoso, intervenções apropriadas e apoio médico especializado, é possível reduzir riscos e manter o tratamento de forma segura.

Dr. Marcelo Cruz é médico pela UNICAMP, oncologista clínico do Oncologistas Associados e Grupo Orizonti, Fellow do Programa de Desenvolvimento de Novas Terapias (Developmental Therapeutics Program), Mestre em Pesquisa Clínica pela Feinberg School of Medicine Northwestern University, Chicago – EUA.

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